4.1.06

PAÇOCA E SUAS FILHAS

Tião Paçoca, agricultor na zona rural do Distrito de Itajubaquara, tinha duas filhas: Rosa, a primogênita, fora, em outros tempos, uma mulata bonita, alegre e faceira, portadora de faróis e carroceria capazes de deixar qualquer lusitano maluco. Casou-se com Zé de Joana, e hoje, com oito filhos, fazendo todas as tarefas de casa e ainda ajudando o marido na roça, transformou-se numa velha antes do tempo, magérrima, tal qual o espantalho que tinham no roçado para afugentar os passarinhos ladrões. O velho Paçoca sofria com a transformação de Rosa e punha toda culpa em Zé de Joana, ou melhor, no seu apêndice infra-umbilical, famoso por suas dimensões anormais.

Pretinha, a caçulinha, ao contrário de Rosa, sempre fora magrinha, doentia, "UM FRASQUIM DE VRIDO", como a definia o pai. Ao conseguir o primeiro namorado, foi logo pensando em noivado e casamento; decorridos alguns meses de namoro, resolveram, ela e o pretendente, encarregar Rosa de sondar o velho Paçoca, para o tradicional pedido feito através de "MAL TRAÇADAS LINHAS". Ao saber quem era o pretendente, o velho, que era mulato, ficou branco, manifestando de imediato a sua reprovação, apresentando um monte de razões, não revelando, porém, a principal, ou melhor, a única, e continuou irredutível, sempre que lhe abordavam o assunto. Pretinha, a despeito da recusa do pai, não desistiu do seu bem amado, e tudo fazia pela realização do seu sonho: solicitava a intercessão de amigos, rogava a aprovação do velho aos prantos, até que certo dia Tião resolveu se abrir:

- Mia fia, desiste deste casamento, mire no espelho de sua irmã, veja o que restou daquele mulherão, daquele bundão. Casou, Zé de Joana lhe enfiou a "SELADA" sem pena e sem dó, hoje não tem carne na bunda que dê prá inchê um pastéis. O que será de tu, mia fia, um trenzim magrim que eu óio e num vejo onde iscondê uma pica, querendo casá logo cum quem? cum um irmão de Zé de Joana!!!

1.1.06

TROCA DE NOIVAS

A romaria ao Bom Jesus da Lapa acontece há muitos anos; em tempos remotos, os sertanejos faziam-na a pés, por força de promessa e também por falta de recursos. Reuniam-se, de ordinário, nessa penitência, várias famílias que aproveitavam a oportunidade para a realização de batizados e casamentos, em face da falta de padres no meio rural em que viviam, mesmo nos povoados e vilas adjacentes.

Certa feita, várias famílias residentes em lugarejos do então Distrito de Jordão de Brotas, ora Município de Ipupiara, empreenderam essa peregrinação. Na Cidade da Lapa, depois das homenagens ao Milagroso Bom Jesus, batizaram inúmeros pagãos e realizaram dois casamentos.

No retorno às sua moradas, no primeiro dia de viagem, pernoitaram numa fazenda, numa Casa de Farinha. Noite escura como breu, sem lua, sem uma única estrela no céu, não se enxergava um palmo à frente do nariz. Ao romper da aurora (desconheço a razão do equívoco), ao despertarem, os nubentes se surpreenderam ao encontrarem ao seu lado a noiva que não era a sua. Ao procurarem fazer a "destroca", um dos noivos não concordou e só a muito custo persuadiram-no, dando-lhe de vantagem uma espingarda pica-pau e um rolo de fumo de corda.

Esse fato me foi contado por minha mãe, que ouvira em sua terra natal, Gameleira de Brotas, hoje Ibipetum, como verídico. Muitos anos depois, em Lençóis, o saudoso José Benício de Matos, então Prefeito do Município de Wagner, asssegurou-me haver conhecido um dos noivos, nos garimpos da Chapada Velha, já velhinho, quase centenário, mas ainda lúcido para recordar-se da aventura.